Isabela tinha 22 anos. Havia nascido nas cenzalas da fazenda do Rosário, uma

propriedade vasta e imensa no interior da Bahia, herdada de geração em geração pela família Silva. Não conhecia a

liberdade, só conhecia trabalho. Trabalho do amanhecer até a noite

cerrada. Trabalho que drenava cada gota de energia de seu corpo frágil.

Desde os 5 anos de idade, Isabela aprendera a carregar peso. Desde os 10

anos, aprendera a calar a dor. Desde os 15, aprendera a engolir as lágrimas em

silêncio. A vida na cenzala não deixava espaço para esperança. Ou deixava sim,

deixava espaço para um tipo especial de esperança, a esperança daqueles que não têm nada mais a perder. Sua mãe havia

morrido quando Isabela tinha apenas 8 anos. morreu de febre. Morreu porque não

havia médico para escravizados. Morreu porque a vida na cenzala era lenta à morte. Isabela a vira a apodrecer

enquanto o Senhor não fazia nada. Enquanto todos assistiam impotentes, seu

pai havia sido vendido quando ela tinha 6 anos. Vendido para outra fazenda.

Vendido porque era homem forte e trabalhador. Isabela nem se lembrava dele direito. Lembrava apenas de uma

sombra, de uma voz grave, de mãos ásperas que apegavam nos ombros. Os

avós, os tios, os primos, todos dispersados, todos separados. A

escravidão era isso. Era a destruição deliberada da família, era a morte enquanto se respirava. Ela era

considerada uma das mais bonitas da fazenda. aquele cabelo preto longo e ondulado, aqueles olhos castanhos

profundos que pareciam guardar histórias de vidas passadas, aquele corpo bem formado, apesar da desnutrição

constante. Mas essa beleza não era um privilégio, era uma maldição absoluta.

Todos os dias vivia com medo. Medo das mãos que queriam controlá-la, medo do

capataz que a olhava de forma que fazia sua pele arrepiar. Medo do chicote, medo

de ser vendida para uma fazenda ainda pior. Medo de perder o pouco de dignidade que lhe restava. Uma semana

antes havia escutado conversas. O capataz falava sobre vendê-la, falava

sobre mandar Isabela para o sertão, para aquelas fazendas das quais ninguém voltava. Isabela havia passado a noite

inteira acordada, orando, pedindo a Deus que tivesse piedade. As noites eram as

piores. Isabela dormia com um machado embaixo de sua esteira de palha, não

para lutar, mas para ter a ilusão de controle sobre seu próprio destino.

Porque uma mulher bonita numa cenzala era um alvo constante. Tinha que estar sempre alerta, sempre pronta. Uma vez

aos 18 anos, o filho do Capataz havia tentado, havia entrado na cenzala noturna, havia chegado perto dela.

Isabela havia pego o machado e ameaçado. Ameaçou cortar sua garganta se ele se

aproximasse. Aquele rapaz havia saído correndo. Havia gritado para seu pai que

Isabela era louca, que era selvagem. Depois disso, deixaram Isabela em paz,

mas o preço era alto, era ser marcada como problemática. Era saber que quando

chegasse a hora de vender alguém, ela seria a escolhida. Mas Isabela tinha algo que nenhuma corrente conseguia

prender. Um espírito indomável, um fogo que não apagava, uma determinação de

viver, uma esperança que recusava a morrer. Cantava enquanto trabalhava nos

campos de cana de açúcar. Cantava músicas que sua avó havia ensinado quando ainda era pequena.

Músicas que falavam de ancestrais livres, músicas que falavam de terras distantes onde o povo de sua cor não era

escravo. Músicas que falavam de um Deus que via o sofrimento e um dia faria

justiça. Os outros trabalhadores tinham medo de cantar, tinham medo de mostrar

qualquer sinal de vida. Mas Isabela cantava e sua canção era um ato de

resistência. Era um ato de desafio contra o sistema que aprendia.

Rezava toda a noite. Rezava com a intensidade daqueles que sabem que Deus

é a única saída. Rezava para que conseguisse viver mais um dia. Rezava

para que conseguisse encontrar um motivo para acordar de manhã. Rezava para que um dia pudesse ser livre. Sonhava

secretamente com liberdade. Sonhava com um dia em que poderia escolher seu próprio caminho, escolher seus próprios

amores, escolher sua própria vida. Esses sonhos eram suas riquezas. Esses sonhos

eram tudo que tinha. Os outros escravizados da fazenda a respeitavam.

Havia algo em Isabela que inspirava respeito. Apesar da juventude. Ela cuidava dos mais velhos. compartilhava

sua pequena porção de comida com as crianças famintas, amparava os doentes,

cantava para os que morriam, acompanhando suas almas para o outro lado. Era uma luz fraca, mas ainda assim

uma luz num lugar de escuridão absoluta. Ela não sabia que seu destino estava prestes a mudar. Não sabia que em breve

conheceria um homem que faria escolhas impossíveis por ela. Não sabia que o amor chegaria à sua vida como um raio em

uma noite escura. Um raio que queimaria tudo que conhecia. Naquele ano, o filho do Senhor voltou de

São Luís. Seu nome era Henrique Silva. Havia estudado na capital durante 5

anos. Havia crescido ao luxo. Havia dormido em camas macias e acolchoadas.

Havia comido comida farta todos os dias. Havia tido acesso a bibliotecas cheias

de livros. Havia estado longe da realidade crua das cenzalas. Tinha 25

anos. E a arrogância de quem nasceu com tudo, a arrogância daqueles que nunca tiveram que lutar por nada, a arrogância

de conhecer os privilégios desde criança. Mas Henrique era diferente de

seu pai, profundamente diferente. Henrique havia viajado pela América.

Havia passado tempo em cidades grandes como Rio de Janeiro. Havia estado na Europa, havia dormido em Paris. Havia

caminhado pelas ruas de Londres. Havia visto como existiam outras formas de viver. Havia lido livros proibidos sobre

liberdade, havia lido os filósofos franceses. Havia lido sobre direitos

humanos. havia conhecido pessoas que falavam sobre a abolição, pessoas que

lutavam contra a escravidão, havia ouvido o som da mudança no ar,

havia ouvido histórias de revoltas, havia ouvido falar de escravizados que se tornaram livres, havia ouvido que o

mundo estava mudando, que a escravidão estava sendo abolida em alguns lugares.

voltou cheio de ideias perigosas que circulavam entre os intelectuais da capital. Ideias sobre abolição, ideias

sobre igualdade, ideias sobre os direitos inalienáveis de todos os seres humanos, ideias que seu pai e a